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Efeito dominó chega ao Ceará e tenta mostrar que o País nunca adormeceu

Para o professor Clésio Arruda, o diferencial dos últimos atos é que as pessoas estão buscando um processo de participação política mais efetivo, há "uma vontade de fazer história", participação que não foi possível em outros momentos (Foto: Agência Diário)
A participação do povo brasileiro na vida política e social do País está presente desde os tempos coloniais, pondo em xeque afirmações que aparecem, sobretudo, em mídias digitais interativas de que o "gigante acordou" agora, a partir das manifestações que começaram em São Paulo, há cerca de 15 dias, tendo como estopim o aumento das passagens de ônibus.


Como num efeito dominó, seguindo o exemplo dos movimentos "Primavera Árabe", iniciado no Norte da África; dos "Indignados", na Espanha; e "Ocupy Wall Street", nos Estados Unidos, em 2011, as manifestações invadiram os quatro cantos do Brasil, e chegaram a Fortaleza desde a última terça-feira (18). "O gigante nunca esteve adormecido", avalia Sarah Cavalcante, secretaria de Organização do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Ceará (DCE-UFC) e militante da Juventude Socialista, lembrando que "desde o processo de colonização, o povo brasileiro nunca abaixou a cabeça diante das dificuldades enfrentadas no seu dia a dia". Agora, nas atuais manifestações, o povo pede por reformas no sistema político.

A estudante cita diversos momentos que marcaram e continuam com a participação do povo cearense no processo democrático. Desde a luta contra o regime militar (1964-1985), passando pela anistia, nos meados dos anos 1970, Diretas Já, nos anos 1980, e a ação dos "caras pintadas", culminando com a renúncia do então presidente Fernando Collor de Mello, em 1992. "Em todas essas ocasiões, o povo brasileiro foi para a rua".

Conta que, nos anos 1990, por diversas vezes, os jovens protestaram contra o neoliberalismo e pediram melhor educação. No ano passado, a União Nacional dos Estudantes (UNE) realizou passeatas cobrando 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação e 100% dos royalties do pré-sal para o setor. "Na verdade, o povo cearense não tem costume de se calar quando vê seus direitos retirados".

Para Clésio Arruda, doutor em Sociologia e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), as manifestações atuais constituem "um movimento político com foco", diz, justificando o número de pessoas que consegue aglutinar, como as 300 mil pessoas, no Rio de Janeiro.

História
O que se observa de diferente de outras manifestações que foram registradas ao longo da história, diz, é que as pessoas buscam um processo de participação política mais efetivo. "É uma nova forma de fazer política a partir das redes sociais", observa, entretanto, adverte: "não pode ser deslocado do que ocorreu historicamente". O que o pesquisador enxerga "é uma vontade de fazer história". Explica que não foi possível essa participação de forma completa em outros períodos.

Segundo o sociólogo, "não fizemos nossa independência e nem nossa República". Ele acrescenta que houve intermediação por parte das elites econômica ou intelectual no processo que provocou essas mudanças. O que se observa é uma busca da participação no País, algo que não foi conseguido nos mais de seus 500 anos. Houve uma transformação econômica, quando o Brasil passa a ser a 6ª economia do mundo, "mas a nossa política é atrasada, do coronelismo". Nesse aspecto, não houve uma modernidade política e social, diferente da economia. As manifestações lutam por mais educação e saúde, reivindicações que superam o pedido por transporte.

Ele lembra que, nos últimos dez anos, a educação foi universalizada, mas falta qualidade. Outro aspecto destacado pelo pesquisador diz respeito à revolução tecnológica. "O pouco que se ganhou é motivo para o que está acontecendo", analisa, fazendo referência à classe média emergente, população que deixou as estatísticas de pobreza. Assim, começa a participar da sociedade, a exigir direitos.

Com relação às tentativas de ocupação dos prédios, analisa como "atos simbólicos", ou seja, como se estivessem ocupando o que pertence ao povo. "O que se observa, em algumas capitais brasileiras e no Distrito Federal é que, além das ruas, os manifestantes ocupam os prédios legislativos e executivos, independentemente da legenda partidária que está no poder. Essa é uma demonstração clara de que estão contra o sistema político mesmo", explica.

Quanto à duração das manifestações, o sociólogo acredita que "nenhuma sociedade consegue manter essa tensão", pois as pessoas têm rotina, trabalham ou estudam. Aposta que os protestos não vão durar mais do que as duas próximas semanas. Porém, esclarece: "não é uma onda que se acaba. Ela está politizando uma geração. Em médio ou longo prazo, as manifestações irão se arrefecer, ficando na memória das pessoas".

Anos 60 marcados por manifestações
A década considerada emblemática para os protestos estudantis é a de 1960, em especial o ano de 1968, quando jovens do mundo inteiro saíram as ruas para protestar. O famoso "Maio de 68", na França, que começa com protestos em universidades, desencadeando uma greve geral, faz seus efeitos ecoarem, de imediato, no resto do mundo.

No Brasil, foram sentidos os respingos do movimento, apesar da ditadura vigente. Antes mesmo do emblemático "Maio de 68", estudantes do Liceu do Ceará realizavam manifestações. Na luta pela anistia e pela redemocratização, a Avenida da Universidade era um dos principais palcos de protestos que terminavam na Praça do Ferreira.

Com a redemocratização do País, a partir da segunda metade dos anos 1980, começam a surgir vários movimentos: mulheres, donas de casas que lutavam contra a inflação, movimento dos sem-teto e, a partir dos anos 1990, todos os anos, as populações saem às ruas no dia 7 de setembro com o movimento "O Grito dos Excluídos".

Uma das militantes mais representativas no Estado, a professora Rosa da Fonseca, ex-presa política, atualmente integra o movimento Crítica Radical, confessa: "vejo as manifestações com uma alegria muito grande", justificando ser um movimento independente dos partidos políticos. Não tem pauta de reivindicações fechada, expressando o descontentamento das pessoas.

Esgotamento
Conforme Rosa, o que se pode perceber nas entrelinhas é a luta contra o esgotamento da política que sustenta o sistema capitalista. "Demonstra o caos em que se encontra a população que sofre com violência, drogas e corrupção". Afirma que, desde 1999, a Crítica Radical chamava a atenção para o fato de o sistema político atual não responder mais aos anseios da população.

Sílvia Maria Vieira dos Santos, doutoranda em Educação na UFC, analisa as manifestações como uma demonstração de descontentamento do povo. A novidade é que eles desmascaram a política, "mostrando que é uma mentira". Ela destaca a mensagem passada pelos jovens de que não querem ser representados pelos políticos, daí invadirem o Congresso Nacional e as sedes dos governos. (IS)
Sentidos da reinvenção de símbolo nos protestos

O protagonista do romance em inglês "V de Vingança" (Foto: WALESKA SANTIAGO)

Em todas as manifestações de rua no País, um rosto se repetiu: branco, de bigode fino e barbinha, com um sorriso zombeteiro. É a máscara sob a qual se esconde o personagem V, protagonista da romance em quadrinhos inglês "V de Vingança", publicada originalmente entre 1982 e 1988. A figura, criada pelo roteirista Alan Moore e o desenhista David Lloyd, ficou ainda mais popular com a adaptação da história para os cinemas, em 2005.

A máscara representa o rosto de Guy Fawkes (1570 - 1606), um alferes inglês que participou de um plano frustrado para matar o Rei James I, em 5 de novembro de 1605. O plano de explodir Câmara dos Lordes foi descoberto e Fawkes, preso e torturado. Ao longo da história, sua figura foi investida de heroísmo. O 5 de novembro converteu-se numa data de festejos em que o povo queima um boneco representando uma figura pública detestada (algo como malhação do Judas).

Em "V de Vingança", Moore e Lloyd usaram Guy Fawkes como um símbolo contra o autoritarismo. Na história por eles criada, a Inglaterra vive sob uma ditadura fascista, estado policial que extermina seus opositores. A inspiração da dupla era a política conservadora da primeira ministra Margaret Thatcher.

V é um seguidor do ideário anarquista, crítico da figura centralizadora dos governos. Ele cria atos para aterrorizar os inimigos e conclamar o povo às ruas para uma tomada de poder. A ideia de abrir mão de lideranças casou com as agitações de 2011 em diversas cidades do mundo, caso do movimento Occupy Wall St. (EUA) e a Primavera Árabe. Daí a máscara do personagem ter sido adotada por manifestantes de todo o mundo.


Fonte: Diário do Nordeste  / Miséria

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