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A visão de mundo revelada através dos cânticos religiosos, por Carlos Alberto Tolovi

No último programa Esperança do Sertão, tivemos como tema “O Poder da Música”. E trabalhamos esse tema nas diversas dimensões da vida humana. E neste sentido, nos perguntávamos: como podemos interpretar a música no campo teológico e ideológico das religiões?

Podemos dizer que este é um dos campos em que a música possui um poder impressionante. Na Igreja, por exemplo, em uma celebração, é o momento em que o homem e a mulher de fé, estão ali com o coração aberto e sensível. A música, nesta situação, toca diretamente a sua alma.

O interessante é perceber que, assim como na sociedade, na religião as músicas também vão mudando de acordo com as mudanças culturais, com a forma de vida. Um tempo atrás nas Igrejas se cantava hinos que falavam da comunidade, se referiam à coletividade. Atualmente, com o avanço do capitalismo, do individualismo, as músicas religiosas também mudaram. Agora dificilmente elas se referem à um deus que se manifesta coletivamente, mas individualmente. É o deus da subjetividade, da intimidade interior. O deus poderoso que produz o milagre, que, por sua vez, movimenta os novos “impérios” religiosos. Mas dificilmente realiza um milagre social, e sim, individual.

Neste contexto, antes se ouvia cantar as músicas de líderes comunitários como Zé Vicente que diziam: “Eu sou feliz é na comunidade...”. Como cantavam os jovens da primeira geração da ARCA. Hoje as músicas que predominam apontam para outra dimensão. Como por exemplo:

Deus está aqui neste momento,
sua presença é real em meu viver
Entregue sua vida e seus problemas,
fale com Deus, ele vai ajudar você


Ou então

Entra na minha casa
Entra na minha vida
Mexe com minha estrutura
Sara todas as feridas

Músicas que os mesmos jovens de “ontem” passaram a cantar hoje, sem questionar.

Agora, neste novo cenário, os crentes estão na multidão, mas a busca por deus é individualizada. Cada um por si e Deus para todos! As músicas não incentivam mais a vida comunitária, mas o encontro pessoal com Deus. Reproduz a realidade do capitalismo: todos estamos dentro dele, mas cada um buscando o seu espaço em uma competição onde o outro é o rival. O que une a sociedade não é mais a solidariedade, mas a busca pela prosperidade que possibilita maior condições de consumo.

Enfim, as músicas religiosas refletem a teologia das religiões. Isto é, a visão que temos sobre deus reflete a visão imposta pela nossa sociedade. Se você quiser saber qual é a visão de mundo pregada por uma religião é só entrar na Igreja e analisar os hinos mais cantados. 

E as teologias das religiões refletem a realidade social e cultural em que vivem os grupos sociais. E essa realidade é, em grande parte, definida pelas condições que o povo enfrenta na luta pela sobrevivência. Ou pelos valores que o povo adquire na realidade social onde está inserido.

Atualmente a prosperidade é um dos temas que mais aparece nas religiões. Não é por acaso. Está ligado aos valores do capitalismo. Para o capitalismo, a bênção de Deus se mede pelas condições financeiras do indivíduo. Esse é o deus do capitalismo presente nas teologias religiosas da atualidade.

Os povos levam para as religiões aquilo que eles vivem na sociedade. Se vivem em uma sociedade que incentiva uma vida onde cada um tem de lutar por si mesmo, deus será colocado também nesse mundo limitado e individualizado. Enquanto o deus do capital domina a todos e deixa a sociedade cada vez mais vazia de sentido e perdida, o deus das religiões vem para consolar o indivíduo e atender as suas necessidades individuais. Sendo assim, sem que os fiéis percebam, a religião se transforma em um instrumento de dominação. O capitalismo controla o desejo. A religião controla o “coração”.

E daí, diante dessa realidade, o que fazer? Abandonar a religião?

É claro que não. Mesmo porque, a princípio, é ilusão achar que nossa sociedade pode viver sem religião. O próprio capitalismo hoje, por exemplo, é uma forma de religião. O deus é o capital, o sacrifício é o trabalho, o ritual é o consumo, tudo em nome de uma felicidade que há de vir. Portanto, se a religião, que depende da fé, pode ser um instrumento de alienação e dominação, ela também pode e deve ser uma instrumento de libertação. Tudo depende da face de deus que se prega. Se for um deus preocupado com a comunidade, presente na coletividade e que exige corresponsabilidade, podendo ser encontrado também na intimidade, será um deus à favor da libertação. Se for um deus apenas preocupado com as doenças do indivíduo e com a prosperidade financeira, sendo encontrado apenas na subjetividade, então será um deus que estará favorecendo a dominação social. E as músicas revelam muito bem estes dois projetos diferentes. Então, preste mais atenção nas músicas que você canta em sua Igreja. E analise que visão de mundo elas refletem.

E você, que pensa estar fora de qualquer dimensão religiosa, será que também não estaria alienado, tendo a ilusão de que isso seja possível? A dimensão religiosa, de um jeito ou de outro, não estaria presente no mundo em que você vive?

Vamos juntos refletir!

Carlos Alberto Tolovi

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