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Arte como libertação

Durante o tratamento da depressão, alguns pacientes descobrem talentos adormecidos, seja por meio das artes plásticas, do artesanato, da música, da dança ou mesmo da escrita



capa vida
Os cartões orgânicos produzidos com penas, folhas, sementes e até areia são uma fonte de prazer para Josefa Cruz. Ela aprendeu o ofício e agora repassa o seu conhecimento para outras pessoas em tratamento
fotos:Kleber gonçalves

Desconectar-se do mundo real por meio de práticas simples como desenho, pintura, escultura, poesia, música, dança ou qualquer outra atividade prazerosa. Este tem sido um dos principais caminhos para quem busca o tratamento e a cura da depressão. Só quem vivencia este drama, cerca 17 milhões de brasileiros, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), pode falar com propriedade sobre o assunto.
É o caso de Josefa Gonçalves da Cruz, 39 anos, que desejava tornar-se freira. Na reta final da sua preparação religiosa, faltando apenas um ano de noviciado, ela foi dispensada sob a alegativa de falta de vocação. A interrupção deste sonho bastou para entrar em desespero. Em seguida veio a tristeza, o choro e também a depressão.
Durante três meses, Josefa bem que tentou outros trabalhos, mas também não deram certo. Na verdade, ela precisava de ajuda, e não de emprego, para resolver seus problemas internos. Um dia, depois de chorar muito, Josefa foi à missa e, na ocasião, conheceu o padre e psiquiatra Rino Bonvini, do Movimento de Saúde Mental Comunitária (MSMC), localizado no bairro Bom Jardim.
Virada
Admitindo precisar de tratamento, Josefa procurou o MSMC e deu início a uma nova rotina para a sua vida. Os caminhos, reconhece ela, são de altos e baixos, mas para quem não tinha mais em que acreditar, pode-se considerar uma vencedora.
Durante as oficinas de arte terapia do MSMC, Josefa aprendeu um ofício e, hoje, produz com delicadeza diferentes tipos de cartões orgânicos, cuja renda também auxilia no seu orçamento. "Aqui nós trabalhamos com o objetivo de transformar a dor e o sofrimento em crescimento", explica padre Rino.
Outra fonte de renda e de prazer descrita por Josefa é poder repassar o seu conhecimento para outras pessoas por meio das oficinas no MSMC. Da condição de receber ajuda do Movimento, Josefa também passou a ajudar. Uma das vantagens, segundo ela, é conseguir compreender o próximo a partir de sua própria vivência. "Eu cheguei a desistir duas vezes de fazer os cartões orgânicos. Achava não ser capaz. Acredito que só quem passa pelo problema é capaz de entender o que a gente sente", compara.
Música para viver
Se a arte de fazer os cartões orgânicos entrou na vida de Josefa como uma forte aliada no tratamento para a depressão, o que poderá acontecer com aquelas pessoas cuja arte já é intrínseca? É o exemplo de Eliahne Brasileiro, 51 anos, que sempre teve a música, especialmente o canto, como parte de sua vida. Era uma pessoa feliz e amava o que fazia.
De repente, um acidente trágico de automóvel tirou a vida do seu companheiro. Ela, que estava junto, sobreviveu na forma física. A voz suave, que Eliahne costumava impostar para a alegria dos ouvidos alheios, simplesmente calou.
Junto ao silêncio, veio a dor da perda, a tristeza, o choro e a depressão. Sem vontade de fazer nada, inclusive de comer e beber, Eliahne passou alguns meses. Chegou a hora em que concluiu estar dando muito trabalho para as pessoas a sua volta e decidiu buscar ajuda.
O fato de ter tido na década de 1990 um engajamento com movimentos sociais e com as comunidades eclesiais, Eliahne já conhecia o MSMC e também o padre Rino Bonvini. Este foi o caminho escolhido por ela para reencontrar o sentido da vida. Durante o tratamento, já veio um convite muito especial: coordenar a Casa AME - Arte, Música e Espetáculo, que integra o MSMC. De forma indireta, Eliahne está voltando a se conectar com sua grande paixão: a música. "Só agora, um ano após o trauma, estou começando a cantar de novo", diz com um olhar cheio de alegria e esperança.
Cristina Pioner
Especial para o Vida
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