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Projeto cria audiolivros e aproxima deficientes visuais da literatura

Diante das dificuldades do dia a dia para qualquer jovem com deficiência visual, o estudante Ítalo Gutyerrez, 20 anos, encontrou na leitura um dos momentos mais prazerosos. “Leio bastante, sou um devorador de livros”, conta. Com destaque para as histórias do autor Stephen King, seu autor preferido, o estudante adora viajar pelas páginas de romances, histórias de terror e ficção. “(A literatura) é muito importante, porque a gente fala, aprende e age melhor. A gente nunca vai estar fora das conversas, do mundo que a gente não participa, mas conhece através dos livros”.
O estudante, que nasceu com a deficiência, é um dos beneficiados pelo projeto Audiolivro Fa7, criado pela professora Ana Paula Rabelo, que produz audiolivros para levar a literatura para pessoas que não podem ler ou até mesmo quem aprecia histórias por meio do som. Hoje o projeto atua em mais de 25 instituições locais e em outros Estados, beneficiando mais de 400 deficientes visuais.
Lugares como Instituto dos Cegos, Bibliotecas Municipal e Estadual, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Puc-RS) e Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), compõe o quadro de lugares que recebem o material do projeto.
A professora Ana Paula Rabelo criou o projeto em 2008 ao se deparar com a dificuldade de alunos em fazer leitura oral alta. (FOTO: Arquivo Pessoal)
A professora Ana Paula Rabelo criou o projeto em 2008 ao se deparar com a dificuldade de alunos em fazer leitura oral alta. (FOTO: Arquivo Pessoal)
O início
O início
A ideia deu os primeiros passos em 2008, quando a professora Ana Paula Rabelo, coordenadora do projeto, percebeu a dificuldade dos alunos de Publicidade e Jornalismo em fazer leitura oral alta. “O aluno tinha dificuldades ou por timidez ou por ‘não saber ler’”.
Desta forma, ela criou um grupo de leitura em que os integrantes liam os textos previamente em casa para ajudar no desenvolvimento dos estudantes, mas ela constatou que “mesmo assim eles não conseguiam se expressar”. Segundo Rabelo, por conta desta dificuldade ela foi diminuindo o nível da leitura até chegar à literatura infantil e dar início ao projeto.
Hoje, o projeto já tem 14 produções, das quais cinco são livros falados, ou seja, apenas leitura, e nove são audiolivros, com efeitos e interpretação na leitura. Os gêneros literários privilegiados são contos, crônicas e poesias. A coordenadora conta que um dos trabalhos mais marcantes foi o CD intitulado Fortaleza. “Professores e alunos escreveram textos (sobre a cidade), passamos para braile e pedi para meninos do Instituto dos Cegos fazerem a leitura”. Segundo a professora alguns meninos da instituição foram levados até a sede do projeto, na Universidade Sete de Setembro (Fa7), onde aprenderam a ler em braile com entonação e , depois, gravaram o áudio. “Foi grandiosa essa parte do projeto. Fico emocionada; foi lindo!”, lembra.
Ítalo foi um dos meninos que participou do projeto e ficou responsável pela leitura de uma das crônicas. “Foi um momento único porque sempre escutava audiolivro e quando me coloquei no lugar do leitor, para fazer o que eles fazem por nós, foi algo incrível”. O estudante conta que a participação no projeto foi muito importante para entender todo o processo de produção de um audiolivro. “Ajuda a mostrar para os outros que lemos braille, mas também podemos fazer outras coisas”, completa.
Outro projeto também tratado com carinho por Rabelo foi a CD constituído apenas com textos de mulheres do Ceará. “Geralmente nunca temos espaço para as mulheres, algo que dê voz. Sempre estamos em segundo plano”. Sendo assim, o projeto reuniu uma “literatura que não é divulgada”, com textos de importantes mulheres no cenário da literatura cearense, como Natércia Campos, Tércia Montenegro, Joice Nunes e Lourdinha Leite Barbosa. Confira um trecho do CD abaixo:
Sobre a importância do projeto, Rabelo explica que é uma forma de universalizar a literatura brasileira e cearense. “Temos um percentual muito grande de analfabetos funcionais. Mesmo que decodifiquem, elas não conseguem entender a importância do texto”. Segundo a professora, no caso dos deficientes visuais esse fator se agrava. “Nosso desejo é que mais pessoas tenham acesso à literatura. Não queremos substituir o braille queremos que tenha um instrumento que facilite o acesso ao texto literário”
Lançamento do Mulheres Cearenses 2013 (FOTO: Divulgação)
Lançamento do Mulheres Cearenses 2013 (FOTO: Divulgação)
Como funciona
Rabelo conta que o projeto é construído principalmente por voluntários que variam de semestre para semestre, além do bolsista. “Eles vem e vão, não tem pessoas fixas”. Os participantes passam por um treinamento no qual aprendem sobre a produção de um audiolivro, desde a captação de voz até a edição. “Depois desse processo que a gente começa a gravar o CD”.
Produzir um audiolivros, no entanto, não é uma tarefa fácil, pois é preciso agradar e atender a s exigências de seu público-alvo. Por isso, a professora explica que sempre busca analisar quais elementos agradam. “Eles (deficientes visuais) gostam do audiolivro com variação de voz, principalmente os jovens e crianças cegos, porque eles cansam”. A professora explica que, por isso, cada história é lida por uma pessoa diferente e destaca: “não existe voz feia. Na verdade, não queremos voz técnica, queremos voz do cotidiano, eles gostam disso”.
Participantes aprendem todas as etapas de produção de um audiolivro (FOTO: Divulgação)
Participantes aprendem todas as etapas de produção de um audiolivro (FOTO: Divulgação)
Acostumados com a técnica do campo profissional com o qual lidam, os próprios monitores nem sempre veem com tanta simpatia a “voz do cotidiano”, ou seja, a voz natural das pessoas sem as técnicas de locução. Rabelo, entretanto, sempre tenta deixar a voz natural dos locutores, trabalhando efeitos para tornar a história mais bonita.
 

Fonte: Tribuna do Ceará
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