Conheça a nossa Rádio | Conheça a nossa cidade

75% dos desaparecidos no Ceará são meninas

Para tentar evitar essas situações, é importante que os pais desenvolvam um diálogo mais aberto com os filhos e observem seus amigos (Foto: José Leomar/Diário do Nordeste)
Quando a menina saiu pro mundo, a ausência se espalhou na casa da família. A mãe varreu quarto, sala e cozinha com os olhos arregalados, mas não viu ninguém. Correu até a calçada procurando resposta. O tempo de lançar a vista pra rua foi o mesmo do espanto: a filha sumiu sem deixar qualquer pista de paradeiro.

As cenas, de tanto serem repetidas, pareceriam flashbacks, não fossem as descrições detalhadas dos desaparecidos nos boletins de ocorrência. As características, contidas também nos formulários preenchidos pelos pais nos Centros de Referência Especializados da Assistência Social (Creas), traçam o perfil: 75% das 94 crianças e adolescentes cujo desaparecimento foi registrado neste ano no Estado são mulheres de 12 a 17 anos.

Elas saem de casa para fugir da família, da falta de diálogo, da opinião divergente dos pais. Lançada à própria sorte, a maioria acaba se arrependendo e retornando ao lar. Isso explica, em parte, o alto índice de localização dos desaparecidos: neste ano, 94% dos jovens de até 17 anos registrados voltaram ao convívio familiar.

"Quando a pessoa é localizada, a gente faz um atendimento preliminar com a família para encaminhar ao acompanhamento com psicólogo e assistente social. A gente faz o acompanhamento psicossocial aqui ou encaminha aos Creas mais próximos", explica a assistente social do Creas, Rafaele Barbosa.

Dos 578 casos de desaparecimento de menor registrados pela Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS) nos últimos cinco anos, 93,5% foram localizados. A maioria está concentrada em Fortaleza. Neste aspecto, porém, os dados revelam outra realidade: a dificuldade de contabilizar e acompanhar efetivamente os casos.

Isso porque, conforme Rafaele, ainda são expressivas as ocorrências que deixam de ser registradas. Mesmo os casos que acontecem no Interior são contabilizados pela STDS quando as unidades do Crea enviam as informações, o que nem sempre é feito. "Há muitos casos que não chegam nem até a gente nem à Polícia. Ainda há muita falta de informação da população para efetivar o registro", diz.

Apesar dessa dificuldade, a assistente social explica que a maioria dos casos atendidos nos Creas envolvem a fuga do lar por adolescentes em razão do uso de drogas ou por desentendimentos com a família. "Muitos deles são localizados porque desistem da fuga. O retorno é mais pessoal, o que não quer dizer que os órgãos sejam ineficientes. Eles são fundamentais nesse processo", afirma.

Uma estatística menor vem escondendo o tamanho da dor de mães que foram obrigadas a trocar o crescimento do filho pelo silêncio ensurdecedor de sua ausência. Quase 9% dos registros de desaparecimento de menores deste ano são de crianças de até 11 anos. Embora tenha o menor percentual, o perfil cujas causas são menos explicadas e, como os outros, deixa marcas gigantes.

Ausência

Era uma tarde quente de julho. José Lucas Pereira Queiroz saltitava com os pés miúdos de quem mal completou 3 anos de idade, movimento intenso para rolar a bola no quintal da casa da avó. A irmã, de 20 anos, o observava, enquanto os ponteiros caminhavam rumo às cinco da tarde. No breve instante que a irmã entrou para chamar a mãe, o menino virou ausência. Os olhos maternos só viram a mata silenciosa no fim do quintal.

Com a mãe sem forças e a falta de respostas dos órgãos de investigação, tios e primos tomaram a iniciativa e percorreram meios de comunicação para tentar encontrar o menino. "Mas, até agora, nenhuma notícia", diz a tia, Maria Sila de Queiroz da Silva. "Bombeiros já foram procurar e cães farejadores. Até a Marinha, porque tem uma lagoa atrás da mata. Ninguém encontrou. Cada dia que se passa, já disseram que fica mais difícil".

As primeiras horas após o desaparecimento são cruciais. Por isso, em 2005, o governo federal sancionou a Lei 11.259, conhecida como Lei da Busca Imediata. O objetivo foi abolir a espera de 24 horas e garantir investigação imediata em caso de desaparecimento de menores.

A assistente social Rafaele Batista informa que, ao identificar um desaparecimento, a primeira coisa que o familiar precisa fazer é procurar a delegacia. "É o primeiro procedimento. Se a família quiser que o fato veicule nos órgãos e meios de comunicação parceiros, pode se dirigir ao Creas que a gente encaminha. Aqui tem um flanelógrafo com todas as fotos. Até quem vem para um atendimento às vezes identifica e localiza", diz.

Para ajudar no trabalho de busca, o Creas solicita informações como a roupa que estava usando, onde o desaparecido foi visto pela última vez, além de procurar saber sobre as relações familiares e afetivas.

Para tentar evitar essas situações, diz Rafaele, os pais devem ter um diálogo cada vez mais aberto com os filhos e observar o círculo de amigos.

Como proceder

1. O familiar que identificou o desaparecimento de um ente deve fazer um boletim de ocorrência (B.O.)

2. Em seguida, deve procurar o Creas (Rua Tabelião Fabião, 114, bairro Presidente Kennedy), com foto atualizada do desaparecido e o B.O.

3. O Creas deve escanear o material e encaminhar aos órgãos parceiros para que o material seja veiculado

4. O Creas entra em contato com a família semanalmente para fazer o acompanhamento do caso

5. Uma vez localizado o desaparecido, o Creas chama a família e encaminha para acompanhamento psicológico ou demais serviços necessários

Mais informações

Para tirar dúvidas sobre os procedimentos ou firmar denúncia sobre o tema, basta entrar em contato por meio do telefone 0800.285.1407

Fonte: Miséria
Próxima página
« Página anterior
Próxima página
Próxima página »