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Ceará ainda precisa vencer desafios

Manuel Antônio veio de Teresina, no Piauí, para o transplante de fígado, que aconteceu há um mês (Foto: Diário do Nordeste)
Nesta semana, diversas ações de estímulo à doação de órgãos estarão em pauta. Ontem, foi lançada, no auditório do Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce), a XVI Campanha Nacional de Doação de Órgãos e Tecidos. Na cerimônia, a secretária adjunta da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), Lilian Alves Amorim Beltrão, ressaltou que o Ceará está entre os três estados brasileiros que mais transplantam, mas reconheceu alguns desafios.

"Precisamos resolver o problema da falta de medicamentos pós-transplante. Isso vem acontecendo de forma recorrente e não é possível que a gente faça investimento alto em transplante para que dê errado por falta de medicamento. Estamos discutindo isso com o Ministério da Saúde", prometeu. Ela garantiu que o Ceará precisa investir em pessoal para melhorar a manutenção do doador para ter um aproveitamento melhor dos órgãos.

Para a coordenadora da Central de Transplantes, Eliana Barbosa, o Estado alcançará a meta de realizar mais de mil transplantes neste ano, mas muito ainda precisa ser feito no intuito de informar a população sobre doação de órgãos. "Precisamos melhorar nossa taxa de negativa familiar que é alta, cerca de 40%. Queremos chegar a 20%. E isso só se faz com informação e sensibilização", ressalta.

A doação de córneas ainda é um empecilho. A família do doador ainda tem receio de doar, e a fila de espera é grande. Tanto que mais um banco de olhos será inaugurado amanhã, em Sobral. "Esperamos zerar essa fila. É nossa meta há três anos", pontua Eliana. Contudo, quando se fala no banco de medula, muitas conquistas: já existem mais de 130 mil voluntários cadastrados.

"Isso é resultado de campanhas individuais e de grandes ações, como a campanha Doe de Coração. Elas estimulam a doação de órgãos e sensibiliza a população a entrar nesta luta que temos de transformar a fila de espera numa fila da esperança", pontuou Eliana.

O Movimento Doe de Coração vem levantando a bandeira em prol da doação de órgãos e tecidos e neste mês celebra a sua 12ª edição com saldo positivo. A campanha se tornou referência em todo o País e é realizada pela Fundação Edson Queiroz desde 2003, contando com apoio dos principais órgãos da área.

"Sabia que a minha hora  ia chegar"

Quando alguém pergunta ao aposentado Raimundo Barroso Filho qual sua idade ele responde de pronto: "seis anos". Desde 2009, ele carrega um coração novo e reconta os anos de vida. Há oito anos, teve um infarto, recebeu o diagnóstico de cardiomegalia, fez duas cirurgias de ponte de safena e esperou oito meses pelo transplante.

"Cheguei a receber uma ligação de que faria meu transplante. Mas a família do doador desistiu. Minha família ficou arrasada. Eu não. Sabia que minha hora ia chegar. Dois meses depois, meu coração chegou. Foi de um rapaz de 23 anos, um coração novinho", brinca.

Barroso lembra que, quando acordou da cirurgia, só conseguiu sentir felicidade. Ele faz sua campanha particular. Já convenceu a família e desconhecidos a doar e brinca que é um homem de sorte e coração grande. "Tive a sorte de conhecer a família do meu doador. Tenho três mães: a minha mãe biológica, minha madrasta e a mãe do meu doador".

"Pensei:  vou salvar uma vida"

Quem doa também compartilha felicidade. Assim, é o que prega o consultor farmacêutico André Matos, 40 anos, doador de sangue e de medula óssea. "Fui ao Hemoce doar sangue, como sempre. Aí resolvi me cadastrar como doador de medula, em 2011. Mas eu sempre pensei que seria muito raro encontrar alguém compatível. Até que, em 2013, me ligaram e disseram que tinha um receptor. Foi uma alegria. Lembro que pensei: vou salvar uma vida", diz, emocionado.

Em janeiro, ele fez os exames de compatibilidade e, em agosto, realizou o procedimento. "Foi muito simples. Foi como se eu tivesse doando plaqueta. Uma semana depois, estava participando de uma corrida", lembra. André sempre conviveu com pacientes oncológicos e se colocava, muitas vezes, na situação dessa família. Dessa capacidade de empatia até a doação, foi um processo muito rápido. "Soube que meu receptor tinha 19 anos. E eu só imagino que essa família pôde passar mais um Natal junto com ele", conta.

"Nunca acreditei que iria morrer"

Manuel Antônio da Silva, 70 anos, e a esposa Iramita Pereira Lima, 56 anos, abandonaram tudo - casa, família e amigos - em Teresina (PI), em busca do transplante de fígado. Há um mês, completado hoje, o autônomo fazia a cirurgia que renovava sua esperança e vida. Ainda sem previsão de quando voltarão para casa, eles dizem que a saudade é grande, mas a alegria é maior.

"Eu sabia que ia dar certo. Nunca acreditei que iria morrer", diz Manuel. A esposa confessa que o medo às vezes era maior. "Quando ele entrou na sala de cirurgia, meu mundo acabou", fala emocionada. Iramita afirma que, para a família, o sofrimento é maior do que para o paciente e conta a confusão de sentimentos ao descobrir que o marido ganharia um novo fígado. "Era muita alegria pela gente. Ao mesmo tempo, me sentia egoísta porque sabia que tinha uma família sofrendo. Só me restou pedir que Deus confortasse eles e que nos desse a graça de ficar tudo bem", conclui.

Fonte: Diário do Nordeste / Miséria
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