Conheça a nossa Rádio | Conheça a nossa cidade

Projeto transforma algas marinhas em mousse para merenda escolar no interior do Ceará

O cultivo sustentável de algas está substituindo a prática do extrativismo predatório em algumas regiões do Ceará. Ganhador de prêmios nacionais, o projeto Mulheres de Corpo e Alga, da comunidade da Barrinha em Icapuí, é um exemplo de preservação da natureza que complementa, com um mousse feito de algas, o cardápio de quatro escolas no município uma vez por semana.
Além do produto alimentício, o grupo também utiliza as substâncias das algas para criar cosméticos, como xampus e sabonetes líquido e em barra (FOTO: Flickr Creative Commons)
Além do produto alimentício, o grupo também utiliza as substâncias das algas para criar cosméticos, como xampus e sabonetes líquido e em barra (FOTO: Flickr Creative Commons)
Devido a uma exigência legal de que 30% da verba da merenda escolar seja utilizada para compra de alimentos regionais, a comunidade passou a fornecer o nutritivo doce feito a partir da extração do ágar, matéria-prima usada no preparo das receitas, existente nas algas marinhas. De acordo com a algueira, Leandra Sebastiana, o mousse é bem aceito pelos estudantes e só é distribuído uma vez na semana por indicação da nutricionista. “É muito aceito, em 99% das vezes nunca tivemos reclamações. As pessoas gostam muito do doce.”
Além do produto alimentício, o grupo também utiliza as substâncias das algas para criar cosméticos, como xampus e sabonetes líquido e em barra, que são vendidos em eventos, feiras e no próprio espaço organizado pelo projeto em Icapuí.
Cuidando do meio ambiente
Desde de 2002, a Fundação Brasil Cidadão, por meio do projeto Teia da Sustentabilidade, realiza em Icapuí campanhas contra a degradação do ecossistema marinho. A coordenadora do projeto, Leinard Carbogim, informou que foram necessárias ações na região de Barrinha para que houvesse o cultivo correto das algas e a manutenção da vida marinha no local. “Iniciamos um trabalho de muita conscientização da comunidade, intensificando o cultivo e capacitando as mulheres com atividades sociais. Ao invés de vender as algas, eles fazem o cultivo e produzem merenda escolar e cosméticos. Só não vendem mais por causa da capacidade do banco, é preciso respeitar o limite da natureza” explica.
A coordenadora identificou a comercialização como um problema a ser enfrentado pela comunidade. “Elas estão recebendo apoio de instituições para vencer as dificuldades, mas isso é um processo. Se a gente quiser correr demais alguém vai sair prejudicado. A comercialização é o maior empecilho, fica muito caro trabalhar com nota fiscal.”
Mulheres em ação
Composto por 12 famílias, a maioria dos envolvidos são mulheres que fazem o beneficiamento das algas, lavagem, secagem e transformam a matéria prima em produtos de consumo. Já a parte de coleta e colheita em mar aberto fica a cargo dos homens, por ser uma atividade que requer muito esforço físico e exposição à água, ao sal e ao sol.
Para manter a produção, eles fazem a coleta das mudas em maré baixa amarrando-as em cordas, e, após 90 dias, realizam a colheita. Ecologicamente correto, o processo de lavagem utiliza água da chuva armazenada em cisternas e o de secagem, energia solar. “Preserva a vida marinha que é uma fonte de alimentação e complemento de renda da comunidade” explica Leinard.
Economia
A economia da comunidade de pescadores é baseada nos produtos vindos do mar que, para a algueira Leandra, consegue ser mantida com a ajuda do Mulheres de Corpo e Alga. “Juntamente com o projeto, o cultivo da alga melhorou a biodiversidade marinha, agora nessa região tem muito peixe, lagosta e camarão.” Porém, essa atividade é apenas um complemento da renda “A gente dá uma melhorada na renda. O ganho só não é melhor porque ficamos duas, três horas no espaço. Nas outras horas do dia fazemos outros serviços” completa Leandra.
Outros projetos
A Cooperativa de Algas da Comunidade da Praia da Baleia (Coopamab), localizada em Itapipoca, possui 20 integrantes entre pescadores, agricultores, marisqueiras e donas de casa que realizam o cultivo das algas de forma sustentável, por sistema de engorda em redes. O produto, algas marinhas dos gêneros Gracilaria e Hypnea são comercializadas desidratadas “in natura” e/ou moídas para empresas de cosméticos, produtos naturais e restaurantes.
Segundo o mestre em engenharia de pesca e consultor técnico da cooperativa, Marcelo Torres, a maior dificuldade da atividade no local é a falta de fiscalização das ações extrativistas. “Existe o trabalho feito de forma ilegal e falta fiscalização. Enquanto a cooperativa faz o cultivo, outros degradam os bancos de algas já que empresas japonesas compram por R$0,50 a matéria prima.”

Fonte: Tribuna do Ceará
Próxima página
« Página anterior
Próxima página
Próxima página »