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Ceará: Dirigentes admitem crise de representação

O presidente do Tribunal de Justiça do Ceará, Gerardo Brígido, avalia que o Poder Judiciário é alvo de críticas pela falta de celeridade dos processos. (Foto: Kiko Silva)
Pesquisa realizada pelo Ibope em julho deste ano, após as manifestações que tomaram as ruas do País, mostrou que caiu, em sete pontos, a confiança dos brasileiros em instituições tradicionais como Igreja, Congresso e governos municipais. Questionados acerca da perda de credibilidade dessas entidades, dirigentes cearenses afirmam estar correndo atrás do prejuízo e reconhecem limitações de representatividade dessas instituições, enquanto cientista política alerta para o momento atual de individualismo, que rechaça organizações sociais.

O último lugar no ranking das 18 instituições avaliadas pelo Ibope é ocupado pelos partidos políticos. Em 2009, essas agremiações tinham 31% de aceitação popular, passando, em 2013, para 25% de credibilidade. De acordo com o presidente do PDT de Fortaleza, Papito de Oliveira, essa queda na avaliação das legendas vai ao encontro dos constantes escândalos de corrupção protagonizados em âmbito local e nacional.

"Isso tem denegrido muito a imagem das instituições, e os partidos não estão isentos disso. A própria legislação eleitoral, completamente ultrapassada, tem que ser repensada. A reforma política está sendo pautada há muitos anos, mas não avança", reflete. Para o dirigente, faz-se necessário que as siglas se ajustem às crescentes reivindicações populares. "Mas não é acabando com instituições democráticas que iremos resolver esses problemas. Instituições têm que se adequar aos novos tempos de transparência, legalidade, democracia, enfrentando os verdadeiros anseios da população", aponta.

Sobre a rejeição à militância partidária, o presidente municipal do PDT reconhece ser fundamental uma reaproximação com segmentos organizados da população. "Nós temos que ampliar a participação de setores sociais que hoje estão pouco representados e encontrar a forma de dialogar com esses setores sociais, fortalecer a formação de novas lideranças, tentar trazer para dentro do partido essa juventude que quer participar", analisa o dirigente.

Ocupando o 10º lugar na lista das entidades pesquisadas, o poder Judiciário apresenta 46% de confiança da população contra 52% alcançado em 2009. Indagado pelo Diário do Nordeste se admite ter havido perda de credibilidade da Justiça após os protestos iniciados em junho deste ano, o presidente do Tribunal de Justiça do Ceará, desembargador Gerardo Brígido, questiona, inicialmente, a metodologia de pesquisa do Ibope.

"Eu não posso dar uma opinião se não sei quem pediu (a pesquisa). Terá sido a Abin (Agência Brasileira de Inteligência)? Qual a metodologia empregada nessa pesquisa?", indaga o presidente do TJ.

Limitações

A despeito das ponderações, o desembargador Gerardo Brígido opina que não houve mudança significativa na avaliação da Justiça após a onda de manifestações no País, com exceção do Supremo Tribunal Federal (STF), que teria ampliado sua popularidade. "Na Justiça, de um modo geral, é difícil de ser avaliado o grau de satisfação (...) Depois das manifestações, cresceu a admiração em relação ao Supremo, após o famoso caso do Mensalão, que de um modo geral serviu de espírito para uma nova mentalidade", diz.

O desembargador também diz acreditar que o grau de avaliação do Tribunal de Justiça cearense é "médio", acrescentando que algumas limitações de atuação da Justiça do Estado podem gerar descontentamento na população, especialmente nas classes menos abastadas. "Se você perguntar se foi bem avaliada a Justiça, eu acredito que não, porque o leigo precisa da Justiça, e ela não dá o atendimento que deveria dar por questões de deficiência. A avaliação sempre foi média", pondera.

O presidente do TJ do Ceará lembra que a quantidade de recursos previstos na legislação brasileira, que acabam por atrasar o andamento dos processos, também gera insatisfação nos usuários da Justiça. Ainda como lacunas do trabalho prestado pelo Tribunal, Gerardo Brígido aponta a carência e acomodação de servidores públicos, alertando que há uma demanda por 150 juízes nos municípios cearenses. "Eu penso que o Ceará tem o mesmo grau de avaliação (da Justiça Nacional). Estamos num nível regular. Para sair de regular para bom, ainda vamos demorar", pontua.

Transformações

Perdendo apenas para Sistema Público de Saúde, Congresso Nacional e partidos políticos, os sindicatos atingiram 37% de confiança social, segundo a pesquisa realizada pelo Ibope. Isso após terem se estabilizado, nos últimos três anos, com 44% de aceitação popular. O secretário geral da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Ceará, Helder Nogueira, avalia que as mudanças devem ser encaradas por um viés de transformações políticas e econômicas que ocorreram no País nos últimos anos.

"Do ponto de vista econômico, tivemos um salto. Temos uma sociedade que aprendeu a consumir e com uma qualidade razoável. O cidadão que tem acesso ao consumo tem escolaridade e passa a exigir mais. Exigir mais direito significa exigir mais Estado, saúde, educação". O dirigente acrescenta: "em relação ao político, nas manifestações temos uma parcela de jovens que não viveu nem a ditadura nem o processo de redemocratização, uma geração que cresceu no ambiente democrático. A política se coloca de uma forma mais ampla na democracia".

O secretário geral da CUT no Ceará reconhece que o momento é de reflexão para compreender o atual cenário político e tentar acompanhar as ferramentas de tecnologias que se tornaram indispensáveis à mobilização política. "No caso dos sindicatos, compreendemos que existem desafios e nós já estamos encarando. Primeiro, a comunicação, avançar numa linguagem acessível a uma nova população, internet, facebook". Helder Nogueira completa: "Também é preciso abrir espaço para o jovem, para que a sua voz possa se fazer valer. O desafio é de incluir ainda mais a sociedade, fazer um sindicato mais aberto".

Individualismo

Questionada se a queda da confiança social nas instituições se deu pela falta de retorno dessas entidades após às manifestações populares, a cientista política Carla Michelle, professora da Faculdade Integrada do Ceará (FIC), discorda da hipótese. A especialista ainda afirma que a falta de identificação com as organizações tradicionais é um sinal de negação ao "associativismo". "É reflexo de uma sociedade que se transforma, e o momento é de rejeição a isso através do individualismo. Elas querem falar mais como pessoas físicas. Isso é uma tendência mundial", avalia.

A professa de ciência política também ressalta que rejeição a partidos políticos e mesmo às Igrejas - estas últimas sempre estiveram entre as mais avaliadas - é amplificada pela falta de democracia interna nas legendas e pelos escândalos no universo de instituições religiosas, respectivamente. "Obviamente que tem que fortalecer os partidos políticos, mas acredito que temos que pensar que o momento é outro. Temos que dar oportunidades de participação que não estejam ligadas a essas associações", expõe Carla Michelle.

Confiança

O Ibope inteligência realizou uma pesquisa, entre os dias 11 e 15 de julho deste ano, para mensurar o Índice de Confiança Social do brasileiro em 18 instituições. Todas apresentaram queda em relação à credibilidade. O estudo mostra que também caiu a confiança nas pessoas e em grupos sociais, como amigos, família e vizinhos

Ranking

As entidades mais bem avaliadas no ranking são, respectivamente, Corpo de Bombeiros, Igrejas, Forças Armadas, meios de comunicação e empresas. Os últimos lugares são ocupados pelos governos municipais, sindicatos, Sistema Público de Saúde, Congresso Nacional e partidos políticos

Credibilidade

A pesquisa mostra que todas as instituições tiveram perda de credibilidade após as manifestações, sendo a queda mais brusca a avaliação da presidente Dilma Rousseff, que passou de 63% para 42% em julho deste ano.

Fonte: Diário do Nordeste / Miséria
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